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Histórias e Estórias

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Por que nós nos emocionamos com estórias? Quando lemos um livro, assistimos um filme, ouvimos um conto, muitas destas estórias nos levam às lágrimas, nos trazem alegria, aumenta-nos a esperança e a fé. Sabemos que elas não são reais, não são fatos que verdadeiramente aconteceram com pessoas de verdade. Nunca existiu realmente um Rei Leão chamado Mufasa, ou um órfão leão chamado Simba, mas nada disso impede de nos emocionarmos profundamente com a sua morte, quase como se nossos próprios pais fossem tirados de nós. Sabemos que brinquedos não têm vida, mas por que choramos vendo os brinquedos de Toy Story dando as mãos uns aos outros ao encararem a morte em um incinerador? Depois que Jack e Rose fazem de tudo para ficarem juntos, como não ficar abalado com a morte do protagonista?

Acredito que as estórias tristes mexem conosco por que quando olhamos para a vida real nós nos identificamos com elas. Estas estórias são também a nossa história. Pessoas amadas são tiradas de nós o tempo inteiro, nossos amigos se mudam, nossos pais partem, amizades e vínculos emocionais muitas vezes são tirados de nós mais rápido do que conseguimos forjá-los. Então, quando absorvemos qualquer destas estórias, sabemos que estamos fadados ao mesmo luto e à mesma tristeza que estes personagens fictícios.

As estórias têm um peso gigante sobre as nossas vidas, adoramos ouvir e contar estórias. Na vida esquecemos muitas coisas, mas nunca as histórias. Sendo assim , não é de se espantar o fato de que quando o maior contador de estórias veio ao mundo, ele não escolheu a era dos tabloides, da televisão, da internet e do youtube. Ele não se comunicou por meio de artigos científicos, colunas de opinião, nem mesmo escreveu livros. Jesus simplesmente contava estórias, estórias essas que perduraram mais que reinos e dinastias, que influenciaram bilhões de pessoas no curso da história e continuam mudando a vida de incontáveis outras até hoje.

É claro que emoções não são apenas negativas, existem também estórias felizes. Depois de tantas separações, perigos, limites sendo postos à prova, como não se alegrar – quase transcendentalmente – com o casamento de Aragorn e Arwen em O Retorno do Rei? Ou, ainda mais, quando na coroação do Rei, todos os súditos da terra-média se curvam perante os quatro humildes hobbits do Condado? Mais recentemente, particularmente confesso que me emocionei muito com o fim da saga do infinito da marvel, especialmente quando depois de lhe ser tirado todos os seus amigos e em especial o amor da sua vida, Steve Rodgers volta no tempo para ter aquilo que ele sempre quis, envelhecer ao lado de Peggy Carter.

Sendo assim, acredito que nos emocionamos com os finais felizes por que eles produzem em nós um anseio para que as nossas histórias também tenham um final feliz. Mesmo vendo que a história do nosso mundo não é nada parecido com isso, nós adoramos estórias em que o bem vence o mal, o amor prevalece, as amizades duram e a paz reina para sempre. O mundo que conhecemos não tem nada a ver com estes mundos, a morte, o sofrimento, as percas e os fins são dolorosamente reais, é praticamente um senso comum que finais felizes não existem de verdade por aqui. Mas C. S Lewis (um dos grandes contadores de estórias que já passou por aqui) certa vez disse que os desejos são a prova de que existe algo real para saciá-lo. Se você sente sede, existe algo chamado água, se você sente fome, existe a comida, se você sente desejos sexuais, existe o sexo, logo, ele diz que “se eu encontro em mim um desejo que nenhuma experiência desse mundo possa satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para um outro mundo…Se nenhum dos meus prazeres terrenos é capaz de satisfazê-lo, isso não prova que o universo é uma fraude. Provavelmente os prazeres terrenos não têm o propósito de satisfazê-lo, mas somente de despertá-lo, de sugerir a coisa real.”

As estórias nos cativam, nos despertam e nos fazem desejar um mundo de completa paz, e isso não deve ser negligenciado, esse mundo verdadeiramente existe, e a história do mundo terá um final feliz. Não somos os autores da nossa própria história, e muitos de nós não compreende a história real da qual faz parte. Deus está escrevendo uma verdadeira metanarrativa, A Grande História – a história da redenção. E esta história contém seus apêndices: sobre reinos e nações, babilônios e egípcios, tribos e vilas, clãs e famílias, jovens valentes e dragões terríveis, elfos e anões, gigantes e princesas – as histórias e estórias que conhecemos. Que todos nós possamos identificar nosso lugar e papel nesta grande história, cativando a fé de que o seu final será de alegria, paz, amor e amizade. Nesta narrativa, Deus é o contador da história e o protagonista. Ele é o bardo e o herói. Ele escreve o conto de fadas e, em seguida, vem para matar o dragão e salvar a mocinha. A história do mundo é uma história de amor que termina com um casamento real – a história de um rei longamente aguardado que entra numa cidade de ouro para assumir o trono e em seguida afirmar o seu amor verdadeiro à sua noiva longamente aguardada – e este é o nosso papel.